Sábado, Maio 30, 2009

Eduardo Galeano sobre Benedetti

Escrevi sobre a passagem de Benedetti no Conexão Brasília Maranhão.

O vídeo abaixo, curtinho, 54 segundos, mostra Galeano falando sobre o amigo. Sem mais. Assista.

Terça-feira, Março 17, 2009

Perigo no ar - mulheres em luta!

Ontem foi divulgado o resultado da terceira edição do Prêmio Margarida Alves de Estudos de Rurais e Gênero, modalidade Ensaio Acadêmico.

É uma bela iniciativa do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Homenageia a grande lutadora Margarida Alves e estimula o debate sobre as questões de gênero no campo, tão sufocadas pelo machismo dominante quanto as próprias mulheres em sua realidade cotidiana.

Pesquisa da Fundação Perseu Abramo aponta que uma em cada cinco brasileiras já foi vítima de violência doméstica.

E a cada quinze segundos uma mulher é espancada no país que trata como mercadoria o corpo feminino e "enaltece" uma parte específica dele como "preferência nacional", tomando por "nacional" a preferência de menos da metade da população.

Margarida, além desse tipo de violência física e simbólica do dia-a-dia, também foi vítima da política dos senhores da Casa Grande, que hoje tentam disfarçar suas práticas posando de modernos empresários, sob a alcunha de agronegócio.

Ontem fui à reunião que definiu os resultados do prêmio (matéria aqui) e, quando a conversa abordou a violência doméstica, lembrei do texto abaixo, lido há poucos dias.

Perigo no ar

A rádio de Paiwas nasceu no centro da Nicarágua, às vésperas do século XXI.

O programa de maior audiência ocupa as madrugadas: “A bruxa mensageira” acompanha milhares de mulheres e mete medo em milhares de homens.

Às mulheres, a bruxa apresenta amigos desconhecidos, como esse tal de Papanicolau e a senhora Constituição. E fala de seus direitos, violência zero na rua, na casa e também na cama, e pergunta a elas:

- Como foi sua noite? Como foi tratada? Deu com prazer ou foi meio à força?

E os homens são denunciados com nome e sobrenome quando violam ou batem em suas mulheres. Pelas noites, a bruxa vai de casa em casa, em vôo de vassoura; e nas madrugadas, acaricia sua bola de cristal e adivinha segredos na frente do microfone:

- Ahá! Você está por aí, estou vendo você por aí! Batendo na sua mulher. Que barbaridade, que horror!

A rádio recebe e difunde as denúncias que os policiais não atendem. Os policiais estão ocupados com os ladrões de gado, e uma vaca vale mais que uma mulher.

Eduardo Galeano, Espelhos – uma história quase universal

Dedicado à queridíssima Mariana Pires, amiga e companheira de luta nas trincheiras da comunicação e das mulheres, que estudou um programa feito por mulheres na atormentada Zona da Mata de Pernambuco.

Não posso deixar de lembrar o belo texto "Cinco mulheres", sobre uma das ações históricas da guerreira boliviana Domitila Chungara e suas companheiras.

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Domingo, Março 15, 2009

Ateu graças a deus

Aos nove anos, iniciei um curso para me tornar coroinha. Estudava numa escola de freiras bastante tradicional no bairro onde vivia em Fortaleza. A entrada no curso era motivo de prestígio entre as crianças.

Não fui longe, uma ou duas semanas. Minha mãe percebeu os interesses, digamos, pouco louváveis do instrutor. Meses depois, ele seria expulso da igreja por ter praticados atos conhecidos por um nome que eu só escutaria pela primeira vez muitos anos depois: pedofilia.

Mas o primeiro desgosto real com a religião - particularmente com a Igreja Católica - veio apenas na sexta série, nas aulas de História, da professora Ana Lourdes. Descobri que os (auto-proclamados) representantes de Deus queimaram vivos milhares de pessoas e livros na Idade Média. O crime: idéias divergentes dos dogmas da instituição que chegou a ser proprietária de um terço de todas as terras da Europa. Para um menino de doze anos que era apaixonado por qualquer tipo de livro e adorava conhecer novas e diferentes idéias, aquilo era uma grave contradição.

Passou o tempo e hoje posso afirmar que as pessoas mais virtuosas e de espiritualidade mais latente que conheço não acreditam em deuses, tampouco em religiões monoteístas.

Num momento em que um bispo afirma enfaticamente que o aborto é algo muito mais grave do que o estupro de uma criança de nove anos, a minha convicção no ateísmo é reconfortada. Como dizia o grande mestre Caldeira, a quem dediquei minha monografia de graduação: "Sou ateu graças a deus!".

Vale muito ler o texto abaixo.

Um pai que não ri nunca

Os judeus, os cristãos e os muçulmanos veneram a mesma divindade. É o deus da Bíblia, que responde a três nomes, Yahvé, Deus e Alá, conforme quem o invoque. Os judeus, os cristãos e os muçulmanos matam-se entre si dizendo que obedecem às suas ordens.

Entre as outras religiões, os deuses são ou foram muitos. Números olimpos existiram e existem na Grécia, na Índia, no México, no Peru, no Japão, na China. E ainda assim, o deus da Bíblia é ciumento. Ciumento de quem? Por que se preocupa tanto com a competência, se Ele é o único e verdadeiro?

Não te prostrarás diante de nenhum outro deus, pois Yahvé se chama Ciumento, é um Deus ciumento. (Êxodo)

Por que castiga nos filhos, e por várias gerações, a infidelidade dos pais?

Eu, Yahvé, teu Deus, castigo a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e a quarta geração dos que me odeiam. (Êxodo)

Por que está sempre tão inseguro? Por que desconfia tanto de seus devotos? Por que necessita ameaçá-los para que o obedeçam? Falando ao vivo e diretamente, ou pela boca dos profetas, adverte:

Se não obedeces à voz de Yahvé, teu Deus, ele te ferirá de tísica, de febre, de inflamação, de gangrena, de aridez. Esposarás uma mulher, e outro homem a fará dele. Pó e areia serão a chuva da tua terra. Semearás em teus campos muita semente, mas a secará o gafanhoto. Plantarás vinhedos, mas não beberás vinho, porque os vermes os devorarão. Vos oferecereis à venda a vossos inimigos como escravos e escravas, mas não haverá comprador. (Deuteronômio)

Durante seis dias se trabalhará, mas o sétimo será sagrado para vós, dia de descanso completo em louvor a Yahvé. Qualquer um que trabalhe nesse dia morrerá. (Êxodo)

Aquele que blasfemar o nome de Yahvé será morto. A comunidade inteira o apedrejará. (Levítico)

Mais eficazes são os castigos que as recompensas. A Bíblia é um catálogo de espantosos castigos contra os incrédulos:

Soltarei contra vós as feras selvagens. Vos açoitarei sete vezes mais pelos vossos pecados. Comereis a carne de vossos filhos, comereis a carne de vossas filhas. Desembainharei a espada contra vós. Vossa terra será sempre um ermo e vossas cidades uma ruína. (Levítico)

Esse Deus sempre zangado domina o mundo do nosso tempo através de suas três religiões. Não é lá um Deus muito amável, digamos:

Deus ciumento e vingador, Yahvé, rico em ira! Se vinga de seus adversários, guarda rancor de seus inimigos. (Nahum)

Seus dez mandamentos não proíbem a guerra. Ao contrário: Ele manda fazer a guerra. E a sua é uma guerra sem piedade por ninguém, nem mesmo pelos bebês:

Não tenhas compaixão pelo povo de Amalec. Matarás homens e mulheres, crianças e lactantes, bois e ovelhas, camelos e asnos... (Samuel)

Filha de Babel, devastadora: feliz aquele que agarrar teus pequenos e os despedaçar contra as rochas! (Salmos)

Eduardo Galeano, "Espelhos - uma história quase universal"

Como canta a rapazeada do Eddie, "Eu só poderia crer no deus que confiasse em agitador ou em mestre de obras". A letra está aqui. E a música, aqui.

PS: a imagem é de Michelangelo, num afresco da Capela Sistina.
PS2: Se você também quiser ser excomungado pelo bispo de Olinda, escreva e faça o pedido diretamente a ele:
arcebispo@arquidioceseolindarecife.org.br (aproveite e mande esse post pra ele)
PS3: Não confunda ateísmo com agnosticismo. Pessoalmente, tenho muita afinidade (e curiosidade) pelo espiritismo - fruto de convivência e influência familiar - e pelas religiões de matriz africana - resultado de leituras (sobretudo alguns textos de Steve Biko) e convivências.

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Segunda-feira, Março 02, 2009

A Marselhesa


A Marselhesa é, sem qualquer sombra de dúvida, uma das canções mais belas e emocionantes que a humanidade já produziu. Verdadeiramente arrepiante.

Tenho várias versões aqui, mas a versão de Edith Piaff... sem comentários... (se ainda não ouviu, clique aqui para baixar - letra aqui)



Poucos sabem a sua história, entretanto.

A Marselhesa

O hino mais famoso do mundo nasceu de um famoso momento da história universal. Mas também nasceu da mão que o escreveu e da boca que pela primeira vez o cantarolou: a mão e a boca de seu nada famoso autor, o capitão Rouget de Lisle, que o compôs numa noite.
A letra foi ditada pelas vozes da rua, e a música brotou como se o autor a tivesse dentro dele, desde sempre, esperando para sair.
Corria o ano de 1792, horas turbulentas: as tropas prussianas avançavam contra a revolução francesa. Discursos inflamados e declarações alvoraçavam as ruas de Estrasburgo.
- Às armas, cidadãos!
Em defesa da revolução acossada, o recém-recrutado exército do Reno partiu rumo à frente de batalha. O hino de Rouget deu brio às tropas. Soou, emocionou; e alguns meses depois, reapareceu, sabe-se lá como, na outra ponta da França. Os voluntários de Marselha marcharam para o combate cantando essa canção poderosa, que passou a se chamar "A Marselhesa", e a França inteira fez coro. E o povo invadiu, cantando, o palácio das Tulherias.
O autor foi preso. O capitão Rouget era suspeito de traição à pátria, porque tinha cometido a insensatez de divergir da dona Guilhotina, a mais afiada ideóloga da revolução.
No fim, saiu do cárcere. Sem uniforme, sem salário.
Durante anos arrastou sua vida, comido pelas pulgas, perseguido pela polícia. Quando dizia que era o pai do hino da revolução, todo mundo ria na sua cara.

Eduardo Galeano, "Espelhos - uma história quase universal".

Dedicado ao meu primo-irmão Ricardo Ferraz, que morou três anos em Paris, onde fez o doutorado e onde teve o desprazer de assistir, rodeado de franceses, à segunda humilhação que Zinedine Zidane impôs sobre a seleção canarinho.

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Marajó, Amazonas...

Estive durante cinco dias em Marajó, Pará, a trabalho. Mais precisamente em São Sebastião da Boa Vista, sul da ilha. Nada de búfalos. Muito açaí, muita água (dos rios e das chuvas) e um ambiente de muita alegria e magia. A viagem coincidiu com a lua cheia de fevereiro. Inesquecível.

Mais detalhes, num outro blog que estou ensaiando, o Brasil mais profundo.

Alguns (dos mais de seis mil - meus, do Bira e do Leonardo Melgarejo) registros de lá podem ser vistos aqui. Nem somadas, as imagens conseguirão expressar o que vivemos aqueles dias.

Mas deixo aqui dois textos do livro novo do Galeano, "Espelhos - uma história quase universal", que li na chegada a São Sebastião, no bar da dona Silvana, o Porto Seguro. Bastante adequados à ocasião, ressalto.

Amazonas

As amazonas, temíveis mulheres, tinham lutado contra Hércules quando ele ainda era Heracles, e contra Aquiles na Guerra de Tróia. Odiavam os homens e cortavam o seio direito para que suas flechadas fossem mais certeiras.

O grande rio que atravessa o corpo das Américas de lado a lado se chama Amazonas por obra e graça do conquistador espanhol Francisco de Orellana.

Ele foi o primeiro europeu que o navegou, lá de dentro da terra até mar afora. Voltou para a Espanha com um olho a menos, e contou que seus bergantins tinham sido crivados a flechadas por mulheres guerreiras, que lutavam nuas, rugiam como feras e quando sentiam fome de amores seqüestravam homens, os beijavam na noite e os estrangulavam ao amanhecer.

E para dar prestígio grego ao seu relato, Orellana disse que elas eram aquelas amazonas adoradoras da deusa Diana, e com seu nome batizou o rio onde tinham seu reino.

Os séculos se passaram. Das amazonas, nunca mais ninguém soube. Mas o rio continua com o seu nome, e embora a cada dia o envenenem os pesticidas, os adubos químicos, o mercúrio das minas e o petróleo dos barcos, suas águas continuam sendo as mais ricas do mundo em peixes, aves e histórias.


Foto: Ubirajara Machado/BP
Quantos sabem a origem do nome do rio Amazonas?

Servos e senhores

O cacau não precisa do sol. Porque o traz por dentro.

Do sol de dentro nascem o prazer e a euforia que o chocolate dá.

Os deuses tinham o monopólio do espesso elixir, lá nas alturas, e nós, os humanos, estávamos condenados a ignorá-lo.

Quetzalcóatl roubou-o para os toltecas. Enquanto os outros deuses dormiam, ele pegou umas sementes de cacau e as escondeu em sua barba e por um longo fio de aranha desceu até a terra e as deu de presente à cidade de Tula.

A oferenda de Quetzalcóatl foi usurpada pelos príncipes, pelos sacerdotes e pelos chefes guerreiros.

Apenas os seus paladares foram dignos de recebê-la.

Os deuses do céu tinham proibido o chocolate aos mortais, e os donos da terra o proibiram para as pessoas comuns e correntes.


Foto: Leonardo Melgarejo
Com o cacau que a dona Silvana trouxe do seu quintal.

Eduardo Galeano - "Espelhos - uma história quase universal".

Pra quem é fã da língua de Castella, vale ler essa resenha do livro, publicada pelo mexicano La Jornada.

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Quarta-feira, Junho 25, 2008

A rica e bela história do Haiti

Primeiro país da América Latina a se declarar independente e a decretar a abolição da escravatura, o Haiti - palavra que significa "país montanhoso" - tem uma das mais belas histórias do Novo Mundo.

A pobreza econômica atual contrasta com o passado de colônia francesa mais rica da América. No século XVIII, chegou a ser, por muito tempo, o maior produtor mundial de açúcar, numa era em que este era chamado de "ouro branco" e era motivo de guerras entre países.

Palco da maior rebelião negra até hoje realizada, o pequeno país se fez grande ao pegar o embalo da Revolução Francesa e se tornar livre. Liderados por Toussaint l'Ouverture, os escravos da colônia se declararam livres em 1794. Poucos anos depois, as tropas de Napoleão invadiram a ilha Hispaniola e promoveram um banho de sangue para restaurar o regime de servidão.

Sinônimo de miséria, o país hoje é ocupado por soldados da ONU, liderados pelo Exército brasileiro, numa operação polêmica e, como toda ocupação militar, marcada por arbitrariedades pouco visíveis na mídia tupiniquim.

Vale muito a pena ler o blog e o vídeo* do amigo Aloisio Milani, de quem esperamos um livro reunindo as experiências acumuladas nas várias viagens àquele país. Aliás, o Milani é um dos repórteres cujo trabalho acende uma ponta de esperança no jornalismo, nesses tempos em que, para os escribas das grandes redações, pouco ou nenhum valor têm os ensinamentos - na prática profissional - de mestres como outro Aloysio, o Biondi.

E deixo dois de tantos registro do Galeano sobre esse país de tão rica e brava gente.

*O documentário é de autoria de Aloisio Milani (direção), Marcello Casal Jr. (fotografia) e Oswaldo Alves (cinegrafia), e mostra o cotidiano da mais pobre favela de Porto Príncipe, Cité Soleil.

1794
Paris

"O REMÉDIO DO HOMEM É O HOMEM", dizem os negros sábios, e bem o sabem os deuses. Os escravos do Haiti já não são escravos.

Durante cinco anos, a Revolução Francesa tinha bancado a surda. Em vão protestavam Marat e Robespierre. A escravidão continuava nas colônias: não nasciam livres nem iguais, apesar da Declaração dos Direitos do Homem, os homens que eram propriedade de outros homens nas distantes plantações das Antilhas. Afinal de contas, a venda de negros da Guiné era o negócio principal dos revolucionários mercadores de Nantes, Bordéus e Marselha; e do açúcar antilhano viviam as refinarias francesas.

Acossado pela insurreição negra, encabeçada por Toussaint Louverture, o governo de Paris acaba decretando o fim da escravidão.


1795
Montanhas do Haiti
TOUSSAINT

Entrou em cena há um par de anos. Em Paris, é chamado de O Espártaco Negro.
Toussaint Louverture tem corpo de rã e os lábios ocupam quase toda a sua cara. Era cocheiro de uma plantação. Um negro velho lhe ensinou a ler e a escrever, a curar cavalos e a falar com os homens; mas sozinho aprendeu a olhar não só com os olhos, e sabe ver o vôo em cada pássaro que dorme.

(ambos extraídos de Memória do Fogo II - As caras e as máscaras)

Quinta-feira, Maio 15, 2008

Contradições

Não canso de repetir que o maior desafio da vida consiste em navegar o oceano de contradições sem deixarmos que o barco vire. Não é fácil. Mas quem disse que seria?

Fernando Pessoa registra isso a seu (poético) modo:

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço ao medir-me,
Que tudo isto é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.


Quantas vezes fazemos algo que contraria nossos próprios princípios e idéias? E as contradições não estão apenas nas pessoas. Estão nas instituições, nas entidades, nas organizações... porque estas são feitas por pessoas. Há que se ter cuidado, porém, em distinguir entre contradição e hipocrisia. O neoliberalismo (e seus defensores), por exemplo, diz o que não faz para fazer o que não diz - Galeano.


Li um e-mail** hoje que me fez refletir sobre esse tema e lembrar que até as flores têm suas contradições. O grande Jorge Du Peixe, por exemplo, canta: "E os espinhos são pra quem pensa em enganar a flor / A beleza rédia prosa da dor".

E, afinal de contas, o Drummond já disse há muito tempo:

Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.

Em Galeano, muitas páginas falam sobre o tema. Peguei um pequeno trecho do Livro dos Abraços*, na língua original, que é mais melodiosa.

Celebración de las contradicciones/2

Desatar las voces, desensońar los sueńos: escribo queriendo revelar lo real maravilloso, y descubro lo real maravilloso em el exacto centro de lo real horroroso de América.

En estas tierras, la cabeza del dios Eleggúa lleva la muerte en la nuca y la vida en la cara. Cada promesa es una amenaza; cada pérdida, um encuentro. De los miedos nacen los corajes; y de las dudas, las certezas. Los sueńos anuncian otra realidad posible y los delirios, otra razón.

Al fin y al cabo, somos lo que hacemos para cambiar lo que somos. La identidad no es una pieza de museo, quietecita en la vitrina, sino la siempre asombrosa síntesis de las contradicciones nuestras de cada día.

En esa fe, fugitiva, creo. Me resulta la única fe digna de confianza, por lo mucho que se parece al bicho humano, jodido pero sagrado, y a la loca aventura de vivir en el mundo.

Eduardo Galeano, El libro de los abrazos


*Esse é daqueles livros que marcam a vida de qualquer pessoa. Impossível passar incólume por ele. É desses que ficam eternamente do lado da cama. Quem tiver preguiça de procurar ou avareza de comprar, mas ainda assim muito se interessar, tenho o livro na íntegra, em espanhol, em arquivo digital.


**O e-mail que me levou a esta reflexão veio como resposta (a uma provocação minha) de uma pessoa que não conheço... contradição? Nem tanto...

Domingo, Abril 27, 2008

Aprendizado, renovação, intensidade...

Começo a escrever estas linhas às 2h24 da madrugada de sábado, 19 de abril de 2008. Dum quarto de hotel em Cariacica(ES), onde entrei há menos de uma hora, depois do nosso pequeno grupo ter sido barrado, por falta de vagas, no hotel previsto. Por acaso, identifico que o hotel, bastante simples, oferece uma rede sem fio. Cá estou.

O dia começou com cinco horas entre aeroportos (Brasília-Rio-Vitória). Leve pernada em busca de um almoço que acabou sendo delicioso - confesso que cometi sem pudores o pecado da gula (moqueca, carne assada, lingüiça, feijão preto, arroz com milho, batata frita, tomate, cebola, rúcula, alface e uma farofinha, óbvio).

Entre ida e vinda, quatro horas de estrada (no velho ônibus coletivo urbano, nada da poltronas, muito menos reclináveis), em comboio com mais de duzentos(as) militantes de todo o país (se conversei com uma índia do Acre, o resto é moleza), entre Vitória e Aracruz, município cujo nome é mais conhecido por motivos bastante específicos.

No caminho, além do belíssimo litoral capixaba, um detalhe me grita a atenção. Lembro de uma frase do Eduardo Galeano (sim, dele mesmo!): "A história é um paradoxo ambulante. A contradição move-lhe as pernas". Os ônibus que formam o comboio e transportam os(as) militantes de direitos humanos têm a inscrição: "Este ônibus está a serviço da Vale", ao lado da nova marca da empresa.


Para quem não lembra, esta é a mesma Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), que pertenceu por décadas ao patrimônio do povo brasileiro e foi doada por 3 bilhões de reais (com dinheiro do BNDES, ainda por cima), quando valia mais de cem bilhões, a um consórcio de empresas cuja líder (Bradesco) participou do processo de avaliação que definiu o valor do leilão, realizado em 1997. Hoje, a Vale não é apenas uma das maiores mineradoras do mundo. É uma das maiores violadoras de direitos humanos do Brasil, usando o aparato do Estado para reprimir populações que são prejudicadas por sua gestão sustentavelmente destrutiva.

Abertura do XV Encontro/Assembléia Nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos. O local da cerimônia foi acertado desde setembro.

Na semana passada, um motivo especial se incorporou aos objetivos do evento do MNDH de homenagear a luta que indígenas e quilomboloas da região travam há mais de duas décadas contra uma das maiores papeleiras do mundo, a Aracruz Celulose: as terras indígenas, adquiridas pela empresa através de fraude em conluio com o Ministério da (In)Justiça do Sarney, finalmente começaram a ser demarcadas. O que já seria uma merecida e bela homenagem se transformou em festa de celebração desta vitória histórica. Os guarani e os tupiniquim vão passar o fim de semana comemorando com todo tipo de atividade: esporte, educação, arte, política, ritos sagrados...

Impossível não se sentir mais vivo, contagiado pela força das palavras e gesto de Iara Tupã (Deusdéia, o nome cristão), uma das líderes locais. O mesmo se aplica ao cacique Peru, que assume a deficiência na língua do branco ao mesmo tempo em que expõe suas convicções: "Eu não sei falar português direito... mas sei muito bem dos nosso pobrema e do nosso sofrimento"...

Em vários momentos, a garganta se torce em nó. Noutros, sorrisos gerados pelo humor sagaz de pessoas que são vítimas de preconceitos e discriminações dos mais diversos tipos.

Enquanto falam, atrás deles, no espaço armado para o ato, podem ser vistas bandeiras do MST, do MTST, do próprio MNDH, do arco-íris do movimento GLBTT, duas com a foto imortal de Che Guevara, uma sobre a bandeira de Cuba, entre outros símbolos que representam a diversidade das lutas sociais no Brasil e no mundo.

A noite é de muita festa. Muita alegria. Muita comida. Muita arte. Muita vida.

Adolescentes quilombolas se divertem observando a dança das guerreiras índias. Pouco depois, são os(as) jovens e crianças dos povos indígenas - que habitavam esta terra muito antes de a nomearem de Brasil, nunca é demais lembrar - que dançam ao som percussivo e contagiante do congo, maior representante da música negra no Espírito Santo. Um indiozinho, com não mais do que 12 anos, enverga uma camisa antiga do Fluminense. Uma senhora, septuagenária, não pára de dançar e sorrir, enquanto empunha um estandarte com São Benedito, padroeiro do povo negro aqui e em tantas outras bandas.

Vim representar o Intervozes num debate sobre direito à comunicação e democracia. Ainda nem falei (apenas na tarde deste sábado), mas já me sinto imensamente realizado com o que vi, ouvi e senti nesta sexta-feira. O que vier a mais, excelente.

Meu corpo, que na véspera dormiu apenas três horas, clama por um recesso que, embora breve, será muito revigorante, pois o espírito já foi renovado e, por isso, não quer me entregar a Morfeu ou a Hipnos.

Um dos dias mais intensos da minha vida, que jamais poderá ser descrito em palavras.

Rogério Tomaz Jr.
Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social

PS: Fiz uns vídeos e assim que colocar no Youtube postarei os links aqui.