Quarta-feira, Abril 02, 2008

Futebol ao sol e sombra

Devia esse há tempos. Já falei desse livro - Futebol ao sol e sombra - que considero o melhor sobre o tema. Segue o texto de abertura, "Confissão do autor", que vale para a maioria absoluta dos cronistas do esporte, lembrando o que acontece entre artistas e muitos críticos de arte.

E vale também para expressar algo do qual também já falei aqui: minha paixão pelo jogo é maior do que a paixão pelas camisas. Seguindo este princípio, hoje em dia torço tanto pela Argentina quanto pela Amarelinha. E até o único time que já odiei na vida - o Fortaleza, que, nos anos recentes, tem levado muita vantagem sobre o meu Ceará Sporting Club - é apenas uma referência de grande rivalidade, nada além disso.

Sem mais. Dedicado à Ana Paula, menina Trovão, que jura acompanhar futebol - e torcer pelo São Paulo - desde pequenininha. E que me faz lembrar o grande Vinícius: "A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida".

"Confissão do autor"

Como todos os meninos uruguaios, eu também quis ser jogador de futebol. Jogava muito bem, era uma maravilha, mas só de noite, enquanto dormia: de dia era o pior perna-de-pau que já passou pelos campos do meu país.

Como torcedor, também deixava muito a desejar. Juan Alberto Schiaffino e Julio César Abbadie jogavam no Peñarol, o time inimigo. Como bom torcedor do Nacional, eu fazia o possível para odiá-los. Mas Pepe Schiaffino, com suas jogadas magistrais, armava o jogo como se estivesse lá na torre mais alta do estádio, vendo o campo inteiro, e Pardo Abbadie deslizava a bola sobre a linha branca da lateral e corria com botas de sete léguas, gingando, sem tocar na bola nem nos rivais: eu não tinha saída a não ser admirá-los. Chegava até a sentir vontade de aplaudi-los.

Os anos se passaram, e com o tempo acabei assumindo minha identidade: não passo de um mendigo do bom futebol. Ando pelo mundo de chapéu na mão, e nos estádios suplico:

- Uma linda jogada, pelo amor de Deus!

E quando acontece o bom futebol, agradeço o milagre - sem me importar com o clube ou o país que o oferece.

Eduardo Galeano - Futebol ao sol e sombra

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Em tempo, não vejo nenhum time nesse início de temporada no Brasil jogar um futebol tão vistoso quanto o Fluminense. Chega perto o Botafogo.

Lá fora, confesso que me deleito com o trio de jovens craques do Manchester United, Wayne Rooney, Carlitos Tevez e o tenor Cristiano Ronaldo. O Barcelona ainda tem alguns lampejos, mas longe do esquadrão de dois anos atrás.

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